sábado, 15 de dezembro de 2007

Borbulhas de amor. Crônica por Edna Costa. Nov.17.2007.

Quando a moça feia entrou no vagão do metrô semi-cheio atraiu alguns olhares curiosos e outros indiferentes. Usava um vestido estampado e trazia na mão uma bolsa pequena demais para seu tamanho. Nos pés, sapatilha preta com pulseira amarrada no tornozelo. Uma presilha de cada lado do cabelo dava o toque final da simplicidade.

Olhou ao redor à procura de um lugar para sentar. Sua fisionomia demonstrava cansaço, mas sorriu consigo mesma ao localizar um assento vazio e partiu rápidamente para o espaço, antes que alguém o fizesse. Era gorda e precisou de algum esforço para passar para o canto do banco.

Acomodada, passou as mãos pelos cabelos mal cuidados, puxou o vestido para que cobrisse os joelhos grossos à mostra, ajeitou a pequena bolsa no colo e soltando um longo suspiro deu uma olhadela nas pessoas que estavam ao alcance de sua vista. Parecia tentar analisar um a um, dando assim o troco, como fizeram com ela.

Finalmente virou o rosto redondo para a janela e pela sua expressão notava-se que mergulhara em pensamentos agradáveis. De vez em quando olhava demoradamente para o relógio como se contasse os minutos para chegar. Cerrava os olhos e voltava a suspirar.

Quando chegou ao seu destino, levantou-se tão rapidamente quanto sentara e ficou esperando impaciente, a porta abrir. Foi andando ligeira ladeira abaixo até a saída, onde espiou sorrateira por cima das grades como se procurasse alguém.

Sorriu e desceu as escadas saltitante. À sua espera estava um rapaz magro, e feio como ela. Usava calça jeans, camiseta e tênis surrado. Veio ao seu encontro estendeu-lhe as mãos trazendo-a para junto de si e beijou-a no rosto com carinho. Sussurrou alguma coisa junto ao ouvido da moça que a fez se encolher e rir, fazendo-a parecer por um breve momento um pouco menos feia.

Deram a volta em um velho fusca desbotado e o rapaz abriu-lhe a porta num gesto de cavalheirismo, já em desuso nos dias atuais. A moça agradeceu com um beijo terno, entrou e ajeitou-se no banco, repetindo quase o mesmo gesto que fizera no metrô. O rapaz entrou, afagou-lhe os cabelos, ligou o carro e partiram.

Eu, que acompanhei toda a cena desde a entrada da moça no metrô, até a partida do carro, posso jurar que do escapamento do fusca, ao invés de poluição, saíram muitas, muitas borbulhas de amor.

Um comentário:

Bete disse...

"O Natal é o nascimento de Cristo, poucos se lembram. A Ano Novo é o nascimento de uma nova esperança, temos todos que passar por ele. Feliz Natal e Próspero Ano Novo".
Bjs!!!